
O Pedro aproximou-se, muito excitado «Clarinha, és capaz de guardar um segredo? Promete que sim! -- Claro que sou! Do que se trata?» O Pedro fez uma pausa. «Entrei, por acaso, no quarto do avô. Sabias que ele tinha uma colecção de búzios? -- Sabia! -- Não disseste nada, porquê? -- Não calhou! -- Encostaste algum ao ouvido? -- Não! Limitei-me a ver e saí. E tu? -- Nem imaginas como se ouve o mar! Queres ir lá experimentar? -- Agora? -- Sim! -- E se o avô nos surpreender? -- Está a dormir na sala. Nem sonhará que lá fomos. Bóra lá, Clarinha!»
Sobre a cómoda encontrava-se mais de uma dúzia de búzios. De todos os tamanhos. Únicos. Uma colecção lindíssima. «De certeza que o avô não tem apenas estes, Pedro. -- Mas é claro! -- Onde estarão? -- Estes são os preferidos dele. -- Se soubéssemos onde guarda os outros, faríamos a nossa escolha, a nossa colecção. Não me digas que não gostavas de ter uma. -- Claro que sim! -- Qual foi o que encostaste ao ouvido, Pedro?» O Pedro agarrou num búzio de tamanho médio «Este!» Uma brisa quase imperceptível fazia sentir-se. Nem chegava a ser um assobio. Ténue. Quase uma melodia. Um suave marulhar de ondas, indolentes, negligentes, a estenderem-se até à praia, sobrepunha-se. A Clarinha extasiava. «É numa praia assim que eu sempre imaginei estar. Única. A exigir de todos os meus sentidos o máximo. A felicidade pode ser isso!» O Pedro ficou espantado. Encostou o búzio ao ouvido e confirmou. A praia, o mar, a suavidade quase imperceptível da brisa. Estranha. Tamanha quietude. Quando se preparava para devolver o búzio à Clarinha, rasante, um ruidoso bando de gaivotas pareceu sobrevoá-lo. Sobressaltou-se. «Vem aí uma tempestade, Clarinha.» Nem chegou a fazer a entrega do búzio à Clarinha. Foi sugado. «O quê?» A Clarinha conseguiu evitar que o búzio caísse ao chão, mas já nem chegou a encostá-lo ao ouvido. Também ela foi sugada.
O Faísca sentiu de imediato o desaparecimento deles. Não parou de ladrar. Foi ao sofá onde o avô fazia a sesta e, insistente, ladrou mais. Levou uma bengalada. Restou-lhe voltar ao quarto dos búzios e lá permanecer, gemendo, à espera. Inconsolável.
Envolvidos em tamanho turbilhão, a Clarinha e o Pedro choravam e lamentavam a má sorte de escutar búzios. Mas como não há mal que sempre dure, já em alto mar, um cardume de golfinhos socorreu-os. Fazendo toda a sorte de acrobacias e brincadeiras garantiu-lhes segurança e apaziguou-os. Foram levados a um coral. A Clarinha quis saber onde poderia encontrar o Nemo. Daí, vogando mar fora, sem se aproximarem, o Pedro imaginou que um repuxo, desenhado lá longe, seria o do Moby Dick. Mas logo se desiludiu. Perscrutado o horizonte, não se avistava The Pequod, o barco do capitão Ahab.
«Estes mares não são de confiança, Pedro.» Disse a Clarinha. Nessa noite, foram levados a uma enseada. Aí permaneceram numa gruta, sob vigilância, à distância, dos golfinhos. «Achas que podemos passar por marinheiros, Clarinha? -- Não sei. Acho que não! Onde está o nosso barco? -- De certa maneira, somos náufragos, não é? -- E então? -- Há quem diga que estes mares estão infestados de sereias... -- E depois, Pedro, que mal nos farão? -- A ti, nenhum, Clarinha; a mim, não sei! Cantam lindamente. Ninguém lhes resiste. Arrastam-nos para o fundo do mar, para as suas cavernas. Satisfazem-se, a seu belo prazer. De lá, nenhum marinheiro voltou para contar... Sabias?»
Sem que dessem conta dele, o Calypso cruzou a enseada e seguiu. Já tinham adormecido.
Mal o avô saiu do quarto o Faísca entrou e foi farejar insistentemente cada um dos búzios.
De manhã, a Clarinha foi a primeira a acordar. Sacudiu o Pedro «Achas normal este vento frio, Pedro?» Estremunhado, o Pedro não reagiu logo. De facto, soprava um vento arisco. O céu estava carregado de nuvens. O sol encoberto. A vazante, tão acentuada, assustava. «Onde andarão os golfinhos?«
De repente houve um enorme tremor de terra. A maré recuou ainda mais. A Clarinha gritou «Vem aí um tsunami. Só pode ser, Pedro. Fugimos para onde?» Atarantado, às voltas, apesar de acentuadamente escarpada, quase inacessível, gritou «Para a falésia, Clarinha! Corre, Corre, CORRE!!!»
Foi no instante em que a onda gigante, galgando a praia e ameaçando destruir tudo, num aluvião apocalíptico, que o Faísca conseguiu identificar o búzio onde eles se encontravam e, numa lambedela rápida, inverter a sua posição.
A Clarinha e o Pedro jamais entenderão o rodopiar da falésia. Atordoados, enregelados, tremendo de pavor, foram surpreendidos por uma enorme língua de cão a acariciá-los, a restituir-lhes calor e segurança. Uma língua amiga, afagando-os e livrando-os do torpor, da aflição por que passaram. Era o Faísca. Libertava-os da exiguidade do búzio, da armadilha da fantasia.
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Ilustração: Gentileza Google