
Sinopse:
Na noite da celebração do fim da I Grande Guerra nasceu em New Orleans uma criança com a aparência e a condição física de um idoso de 70 anos.
A progenitora morreu no parto.
O pai, devastado, rejeita a criança abandonando-a à porta de uma casa de acolhimento de desvalidos.
Um casal de negros adopta-a e decide chamar-lhe Benjamin.
Gateau, um relojoeiro cego, é contratado para para construir um relógio à escala da grandiosidade da estação de comboios da cidade.
Para sua infelicidade, o filho é uma das vítimas mortais da Grande Guerra.
Gateau não hesita. Constrói o relógio com o movimento dos ponteiros invertido.
Contexto histórico:
Os primeiros 50 anos da História do Sec. XX foram devastadores pelas sequelas de (i) Grande Guerra 14-18; (ii) Depressão de 1929 e (iii) Grande Guerra 39-45.
Esta perspectiva preenche a primeira fase do filme; a segunda, estende-se desde a década de 50 até 2005: o «Baby-boom», a mudança de estilo de vida, as novas oportunidades, a distribuição da riqueza das nações a proporcionar bem-estar inédito, até ao flagelo de New Orleans pelo Katrina.
É na passagem da primeira para a segunda fase que Benjamin, maduro, fulgurante, vivido, transita das atrocidades do quotidiano para ma socialização amena e cheia de afectos.
Virá a ser pai.
Depois de fazer o seu «Grand Tour», regressa para um último relacionamento com a mulher, já casada com outro homem, preparando assim o início da adolescência, a fase pré-natal a seguir, para que a narrativa da sua mulher à filha de ambos -- Em fase terminal no hospital -- termine antes do Katrina fustigar a cidade.
O Tempo Cronológico e o tempo Biológico:
Gateau não se resignou à morte do filho. Por essa razão, o sublimador encontrado foi a inversão do movimento dos ponteiros do relógio: revisão da cronologia.; o presente, relativamente ao passado, a memória trocada pelo exercício do esquecimento da atrocidade da guerra, da morte de um jovem, fixando-se no tempo de vida do filho, apenas isso contando, enquanto ele foi feliz.
A mãe adoptiva de Benjamin, também não se resignou à impossibilidade de ter uma criança, tratando Benjamin como seu filho natural.
Num sentido equivalente, Benjamin caminha para a concepção, para a combinação «XY», mantendo-se vivo e resplandecente, com os olhos postos nesse «futuro» nesse «grau zero», nesse «eterno retorno», sem arrastar o «bom senso» da experiência, a sageza, o que fosse que tivesse acumulado, nada, absolutamente nada, esvaziando-se determinado para os braços da mulher, de Daizy. Não é que desejasse esquecer, ia acontecendo-lhe não se lembrar...
A Memória, o Esquecimento e o Legado:
Daizy fez questão de se deixar morrer só depois de a filha Carolina aceder a esse legado para que o pai a merecesse orgulhosa, de certa maneira íntima de uma conduta extraordinariamente tenaz, através do Diário.
O filme termina com a inundação de cidade, a morte de Daisy, a emoção de Carolina, o bébé Benjamin nos braços de Daisy, frustrando dessa maneira Woody Allen -- É que seu sonho aplicar-se-ia se Daisy, em vez de ser sua mulher, fosse a mãe de Benjamin. -- que chegou a desejar uma segunda vida que, retrocedendo também, iria mais além «Voilá! -- Desaparecer num orgasmo.»
A ideia de que a felicidade está no começo e não no fim da vida partiu de Mark Twain, foi aproveitada por F. Scott Fitzgerald para escrever a obra (Ed. Presença), foi glosada por W. Allen e, para nosso deleite, exibida neste filme que demonstra que «O tempo é sinal da nossa impotência.» Acrescento eu, com a ajuda de Proust: mesmo que se busque o tempo perdido, jamais se alcançará o tempo reencontrado...
O Diário de Benjamin -- Escrito com zelo de homem de idade -- estaria adequado à sua cronologia? É que a partir de certa idade, um jovem vive. Só excepcionalmente escreverá sobre o seu quotidiano fugaz... Um adolescente, então, só pensará em divertir-se, brincar...
Admito que a comparação seja excessiva: com «Forrest Gump», a História da América era excelentemente contada; com este «Benjamin Button», completa-se uma diliciosa narrativa.
Finalmente: é a primeira fase da nossa vida a melhor ou, a idade madura -- a dos «entas», dos 40 a 60 -- a que proporcionará dias admiráveis?