terça-feira, 16 de setembro de 2008

«Segredo»


«Afastado do olhar comum, escondido debaixo da terra como a raiz de qualquer planta, não te esqueças de guardar algo; que apenas depois da tua morte o mundo perceba a sua dimensão»

In:
«BREVES NOTAS sobre o medo»
Gonçalo M. Tavares
Ed. Relógio D'Água

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

SILKY (Conclusão)


5.
Chovia copiosamente quando amanheceu.
O Paulo levantou-se. Correu os cortinados. Uma ténue luminosidade pairou.
Na praça, de costas para a sua janela, uma jovem de anorac escarlate, segurando firmemente pela trela um cão de médio porte, recebia esclarecimentos de um homem.

O cão encharcava.
Era o
Silky. Não havia dúvida. E ela?
Enquanto se vestia à pressa, a jovem era recebida pela D. Eunice e o Sérgio entrava na pastelaria do Lencastre.
O Paulo correu escada abaixo, a galgar degraus, em vão.

O cão da jovem ensaiou uma corridinha para a porta. Não chegou a ladrar.

Quando abriu a porta da rua para gritar
«Isabel, vem para dentro. Um aguaceiro destes faz mal!» a praça já estava vazia.

Profundamente desiludido, regressou ao apartamento. Durante imenso tempo, não saiu da janela. Não circulou vivalma na praça. O desespero aumentava. Telefonou ao Lencastre:
«Sim! Olá Paulo... Nem aqui nem na praça vi mulher com cão... Queres falar com o Sérgio? Se a vir, ligar-te-ei. Fica descansado.» Antes de desligar «Vem cá abaixo tomar um café, aparece!»
A chuva abrandou. Sentiu algum alento. As pessoas começaram a cruzar a praça.
Ao contrário do habitual, D. Eunice não foi à pastelaria do Lencastre. Saiu e acompanhou a jovem até à estação de comboios.
Caminhavam pelo passeio quando se lhes dirigiu um jovem a promover máquinas fotográficas.
«As senhoras podem tirar uma dúzia de fotografias. Trata-se de um modelo descartável. A revelação é grátis.» Entregou uma amostra a cada uma. «Peço apenas que coloquem a vossa prenda com a nossa marca virada para mim enquanto fotografo as felizes contempladas. "Cheese!" Já está. Para minha segurança, deixem-me repetir. "Chees...!" Obrigado!» Continuaram pelo passeio, sem atravessarem a praça, fora do alcance visual de Paulo.

D. Eunice regressou a casa por volta da uma da tarde. Vinha eufórica. Acabara de alugar os dois apartamentos do 1º andar à jovem professora.
Já nem chovia.

Estranhamente, havia água no chão. Subiu a primeiro andar e os seus receios confirmaram-se. Abundante, a água vinha do sótão, de casa do Paulo. Correu à pastelaria «Lencastre, vem depressa. Ajuda-me. Tenho uma inundação no prédio... Ou pior!»
Tocaram à campainha, chamaram, bateram fortemente na porta, tentaram arrombá-la. Nada. Ninguém respondia. A água corria continuamente.
A D. Eunice foi a casa buscar a chave-mestra e os piores receios confirmaram-se: o Paulo jazia na banheira. Cortara os pulsos. No chão, junto ao x-acto encontrava-se, amarfanhada, uma fotografia de polaroid da jovem de anorac escarlate, segurando firmemente pela trela um cão de médio porte, a receber esclarecimentos de um homem. Na parede da sala, ao lado da foto da Isabel, várias outras, mal se distinguindo daquela que fora abandonada no chão da casa de banho. Tratar-se-ia de gémeas? -- Nem pensar!


6.
Resgatado o cadáver, a polícia fez as recolhas preliminares e selou apartamento. A autópsia confirmaria o suicídio.


7.

Reveladas as duas fotografias tiradas na praça, a D. Eunice só aparecia na primeira. Na segunda, muito nítida, a jovem tinha um lenço de seda escarlate, displicentemente colocado à volta do pescoço e envergava um anorac azul. Vestia calças de ganga e calçava ténis de marca.

O louro do cabelo era menos acentuado e o corte idêntico ao da Isabel.


A senhora de idade avançada não se lembrava do lenço de seda. Não podia lembrar-se. Vira-a de costas. Decidida «Foi essa menina que vi, sim. Agora me lembro desse anorac azul. Trazia-o atado a cintura. Não tenho qualquer dúvida. Era ela. Caminhava como se estivesse a passear. A cor do cabelo... Acho que era escura. Assim alourada, não!»
O homem que lhe deu informações na praça, sob o aguaceiro «Do lenço de seda, não me lembro. O zip estava corrido até ao pescoço. O cabelo era escuro e curto. O anorac era escarlate. Mas... Deixe ver melhor... Ah! A gola é que era azul, por dentro.»
O Artur estarreceu quando lhe foi mostrada a fotografia.
«Foi essa mulher que desencadeou esta tragédia... É ela. Reconheço-a. Vinha da falésia com o anorac atado à cintura, sim. Este corte de cabelo é o mesmo. Ela pintou o cabelo, não foi? O que é que conseguiram saber do passado dela?»
Recolhidos os testemunhos, o polícia foi lacónico
«A esta hora, essa senhora estará a ser presa.»


8.

A Isabel, o Paulo e a Rita ensinaram na mesma escola, no regime de triénios.
Não é possível saber se a Isabel chegou a ter conhecimento do envolvimento da Rita e do Paulo ou, fingindo desconhecer, para não escandalizar, uma vez que estavam no terceiro ano de ensino naquela escola, a Rita no segundo, aguardou que a mudança resolvesse os problemas do triângulo.
A Rita soube que eles partiram e reagiu. Fez ameaças. Chantageou o Paulo. Escreveu cartas anónimas à Isabel.


9.

Quando soube que eles se instalaram na casa da D. Eunice e davam aulas na Vila, contratou um detective particular para vigiar a rotina do casal. Pagou ma fortuna e recebeu um relatório cheio de imprecisões, de invenções.
Ao alugar os dois apartamentos do 1º andar excluía a possibilidade de alguém se interpor entre ela e o Paulo, no sótão. As vagas abertas naquela escola eram preenchidas com dificuldade. A apresentação da sua candidatura teria muitas chances de ser bem sucedida. Havia, portanto, que fazer aproximações sucessivas, conhecer as amizades do casal, as suas rotinas. Ser discreta. Tê-lo-á sido meticulosamente.
A Isabel adorava passar uma tarde à beira mar, ou numa falésia, a ler e a ouvir música. A Rita sabia disso.
O que foi feito era o que havia para fazer.
Aproximar-se da Isabel. O Silky já a conhecia, reagiria afavelmente. Um simples empurrão, primeiro da Isabel, a seguir do cão, seria complicado desvendar. Deixaria o Paulo devastado, é certo, mas o tempo e a casual proximidade resolveriam o desamparo que viesse a experimentar. Consumadas as quedas, retirar-se-ia.
Para empurrar a Isabel terá arranjado um pretexto para prender, pela trela, o Silky, ao guarda-lamas do carro. Ela teria de abandonar a falésia antes do cão, reagindo, chegar a alguém. Ela saiu.
O cão conseguiu libertar-se e pedir socorro; a maré não chegou a subir o suficiente para ocultar o cadáver; o grau de prontidão do INEM e dos bombeiros ao pedido de socorro do Paulo e do Sérgio foi exemplar.
Mais tarde, para poder reaproximar-se e evitar ser reconhecida, havia que fazer desaparecer o animal. O que foi fácil. Porém, regressar com um cão simulando um duplo da Isabel e do Silky, ousou em demasia. Ou acharia que devia proteger-se? -- Não se sabe.
Ao instalar-se no sótão, conhecendo-a, o Paulo nunca terá tido dúvidas quanto ao seu regresso. Ela voltou, estoirando com o programa de recuperação psicológica dele.
A Rita terá encontrado uma maneira de o pressionar.
Uma quantidade enorme de objectos e indícios bem como os computadores pessoais de ambos estão sob reserva para averiguações.
Sabe-se que os sintomas de loucura da Rita já transpuseram a prisão onde preventivamente foi instalada. Errou na avaliação de resistência emocional do Paulo. O suicídio dele tê-la-á surpreendido.
Nestas condições resta-lhe o quê, suicidar-se também, lamentar-se por ter lutado por um homem que não aguentou a pressão da separação depois de lhe ter prometido sabe-se lá quê, alhear-se e cumprir a pena, como uma zombi, ou ser inexoravelmente um caso psiquiátrico?
Sabe-se que numa das sessões de interrogatório entrou em histeria quando a polícia fez entrar o Silky -- tê-lo-á suposto morto? -- arrastando uma sobra do guarda-lama pela trela e um lenço de seda ao pescoço, igual ao que ela usou na falésia.

sábado, 6 de setembro de 2008

SILKY


«Outside of a dog,
a book is man's best friend.
Inside of a dog,
It's too dark to read!»
Groucho Marx


1.
A Isabel morreu.

É difícil imaginar como é que um adulto cai falésia abaixo tal como, se a tese do homicídio for comprovada, um adulto acompanhado de um cão não resiste a uma investida, não evita a morte.
Como o resultado da autópsia é desconhecido, os rumores insistem na profusão de escoriações em extensão e profundidade de tal ordem que não teria sido possível comprovar as causas da tragédia: queda em consequência de consumo de droga ou álcool; brincadeira com cão seguida de desequilíbrio; suicídio; homicídio com utilização de arma branca ou de fogo.

Naquela tarde de Maio a temperatura rondaria os 25º C. O cadáver foi resgatado -- havia uma hora que a maré começara a encher -- com um anorac escarlate vestido. O vento agreste é uma justificação aceitável?

2.
O Sérgio, o grande entusiasta das pescarias, estranhou ver o Paulo aproximar-se de mãos nos bolsos. «A cana, Paulo? -- Afinal esta tarde não podemos demorar, Sérgio» A Isabel «A pescaria fica para outro dia.» «Alteração de planos!» Acrescentou o Paulo. Para o lado oposto onde os deixava, a Isabel voltou para o carro com o Silky «Não te esqueças que estou à tua espera, Paulo. -- Não demorarei.»
Onde a falésia menos acentuava o Sérgio e o Paulo desceram uns quinze metros. A partir daí o Sérgio começou a iscar e por ali estiveram a beberricar cerveja e a conversar.
Subitamente, o Silky apareceu lá no alto, ofegante, agitadíssimo, a ladrar intensamente. Correram para carro. A Isabel jazia no fundo da falésia. Morta. O corpo desfeito. Desesperado, o Paulo quase repetia a tragédia na ânsia de socorrer a mulher. Chamaram socorros.

O INEM recolheu o cadáver; o Paulo foi levado ao hospital, em estado de choque.
O Silky passou pelo veterinário para tratar as feridas no pescoço, tamanho foi o esforço para se libertar do guarda-lamas do carro.
A polícia colocou o carro e o cão em sequestro para averiguações e iniciou a recolha de indícios e testemunhos.

3.
O Sérgio estava com o Paulo. A ida à pesca havia sido combinada há dias. O Lencastre e o Artur estiveram presentes. Comprovariam.
Uma senhora de idade avançada lembrava-se de, vinda da falésia, ver passar uma jovem de anorac atado à cintura. Perguntada a cor, hesitou. «Seria escarlate...» Ao saber que a Isabel também vestia escarlate, ficou tão confundida que o seu testemunho enfraqueceu irremediavelmente.
O Artur lembra-se vagamente de ter visto uma jovem de cabelo escuro, curto, com um anorac azul «A cor da gola? -- Não sei precisar... É curioso... Pareceu-me escarlate... Agora me lembro que não era...» A jovem não vestira anorac. Atara-o simplesmente à cintura. «Disso tenho a certeza!» Mas não lhe deu qualquer importância. Esteve com o Lencastre na pastelaria. Poucos minutos passavam das cinco. Estava-se no intervalo da bola.
O Lencastre confirmou ter assistido à conversa sobre a pescaria. Não viu, nem entrou no estabelecimento qualquer jovem ou outro estranho. Soube muito mais tarde da tragédia quando passaram o INEM e os bombeiros.
Depois de um longo esforço para controlar o choro, a tragédia daquela família, a D. Eunice garantiu tratar-se de um casal exemplar, de comportamento irrepreensível, sociável. «Ainda bem que atrasaram a vinda de um filho... Uma desgraça destas... Quem cuidaria dele!»

4.
Quinze dias depois, o Silky desapareceu.
O Paulo ficou muito inquieto. Participou à polícia.
O Artur reuniu o Sérgio e o Lencastre e os três, temendo o pior, cada vez mais inclinados para o homicídio, resolveram tentar falar com o inspector que conduzia a investigação. Apesar de torcer o nariz à iniciativa de protecção informal acedeu, desde que D. Eunice aceitasse ceder-lhes apartamento do R/c. Diariamente, a horas incertas, alguém da polícia "bateria o terreno".
Quando o Lencastre se preparava para fazer o pedido à D. Eunice, esta chamou-o para lhe dizer «Ouve lá, Lencastre: é preciso ferver o chá desta maneira... Concentra-te no que estás a fazer. O teu serviço... Até parece... Bem, sabes uma coisa: o Paulo pediu-me para mudar para o sótão. Só e sem o Silky, disse-me não precisar de tanto espaço. Acrescentou, satisfazer assim um desejo de miúdo -- Nesse caso, fingiremos ir lá visitá-lo para o ajudar a mudar -- Vês, és amigo! -- D. Eunice, eu também queria fazer-lhe um pedido -- Diz!... Trouxeste o adoçante?... Deixa lá! -- Precisamos do seu R/c Dto para precaver algum acidente. -- Achas que o Paulo corre perigo? -- Achamos que será melhor para si e para ele tomarmos esta precaução. Nem ele, nem ninguém poderá saber, D. Eunice. Podemos contar consigo? -- Podem! Também eu acho muito estranho o desaparecimento do Silky. -- Se alguém com uma conversa estranha pretender alugar um apartamento seu, avise a polícia e diga-nos também, valeu?»

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Conclusão na próxima edição.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

TRABALHO TEMPORÁRIO




«Se te dão emprego sem direitos
Não lhes dês competências» (*)

(*) Este grafitti encontra-se na parede da ATLANCO -- Multinacional de Recursos Humanos que oferece serviços de trabalho temporário. -- Ali ao Chiado


quinta-feira, 28 de agosto de 2008

CORPO



«CORPO: Todo o pensamento, toda a emoção, todo o interesse suscitados no sujeito apaixonado pelo corpo amado».


Proust: «Assalta-me, por vezes, uma ideia: ponho-me a examinar longamente o corpo amado (como o narrador diante do sono de Albertina). Examinar quer dizer revistar: revisto o corpo do outro, como se quisesse ver o que há lá dentro, como se a causa mecânica do meu desejo estivesse no corpo adverso (pareço-me com esses garotos que desmontam um despertador para saber o que é o tempo)...»

«Via tudo do seu rosto, do seu corpo, friamente: as pestanas, a unha do dedo do pé, a finura das sobrancelhas, dos lábios, os olhos, um determinado sinal, uma maneira de estender os dedos ao fumar; estava fascinado -- não sendo o fascínio, em suma, senão a extremidade do desprendimento -- por essa espécie de figura colorida, de faiança, vitrificada, onde podia ler, sem nada compreender, a causa do meu desejo.



In:
Texto: «FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO» BARTHES, Roland; Ed. Edições 70
Imagem: «Mulher Sentada Com A Perna Esquerda Dobrada» 1917; SCHIELE

domingo, 24 de agosto de 2008

BÚZIOS


O Pedro aproximou-se, muito excitado «Clarinha, és capaz de guardar um segredo? Promete que sim! -- Claro que sou! Do que se trata?» O Pedro fez uma pausa. «Entrei, por acaso, no quarto do avô. Sabias que ele tinha uma colecção de búzios? -- Sabia! -- Não disseste nada, porquê? -- Não calhou! -- Encostaste algum ao ouvido? -- Não! Limitei-me a ver e saí. E tu? -- Nem imaginas como se ouve o mar! Queres ir lá experimentar? -- Agora? -- Sim! -- E se o avô nos surpreender? -- Está a dormir na sala. Nem sonhará que lá fomos. Bóra lá, Clarinha!»


Sobre a cómoda encontrava-se mais de uma dúzia de búzios. De todos os tamanhos. Únicos. Uma colecção lindíssima. «De certeza que o avô não tem apenas estes, Pedro. -- Mas é claro! -- Onde estarão? -- Estes são os preferidos dele. -- Se soubéssemos onde guarda os outros, faríamos a nossa escolha, a nossa colecção. Não me digas que não gostavas de ter uma. -- Claro que sim! -- Qual foi o que encostaste ao ouvido, Pedro?» O Pedro agarrou num búzio de tamanho médio «Este!» Uma brisa quase imperceptível fazia sentir-se. Nem chegava a ser um assobio. Ténue. Quase uma melodia. Um suave marulhar de ondas, indolentes, negligentes, a estenderem-se até à praia, sobrepunha-se. A Clarinha extasiava. «É numa praia assim que eu sempre imaginei estar. Única. A exigir de todos os meus sentidos o máximo. A felicidade pode ser isso!» O Pedro ficou espantado. Encostou o búzio ao ouvido e confirmou. A praia, o mar, a suavidade quase imperceptível da brisa. Estranha. Tamanha quietude. Quando se preparava para devolver o búzio à Clarinha, rasante, um ruidoso bando de gaivotas pareceu sobrevoá-lo. Sobressaltou-se. «Vem aí uma tempestade, Clarinha.» Nem chegou a fazer a entrega do búzio à Clarinha. Foi sugado. «O quê?» A Clarinha conseguiu evitar que o búzio caísse ao chão, mas já nem chegou a encostá-lo ao ouvido. Também ela foi sugada.


O Faísca sentiu de imediato o desaparecimento deles. Não parou de ladrar. Foi ao sofá onde o avô fazia a sesta e, insistente, ladrou mais. Levou uma bengalada. Restou-lhe voltar ao quarto dos búzios e lá permanecer, gemendo, à espera. Inconsolável.


Envolvidos em tamanho turbilhão, a Clarinha e o Pedro choravam e lamentavam a má sorte de escutar búzios. Mas como não há mal que sempre dure, já em alto mar, um cardume de golfinhos socorreu-os. Fazendo toda a sorte de acrobacias e brincadeiras garantiu-lhes segurança e apaziguou-os. Foram levados a um coral. A Clarinha quis saber onde poderia encontrar o Nemo. Daí, vogando mar fora, sem se aproximarem, o Pedro imaginou que um repuxo, desenhado lá longe, seria o do Moby Dick. Mas logo se desiludiu. Perscrutado o horizonte, não se avistava The Pequod, o barco do capitão Ahab.
«Estes mares não são de confiança, Pedro.» Disse a Clarinha. Nessa noite, foram levados a uma enseada. Aí permaneceram numa gruta, sob vigilância, à distância, dos golfinhos. «Achas que podemos passar por marinheiros, Clarinha? -- Não sei. Acho que não! Onde está o nosso barco? -- De certa maneira, somos náufragos, não é? -- E então? -- Há quem diga que estes mares estão infestados de sereias... -- E depois, Pedro, que mal nos farão? -- A ti, nenhum, Clarinha; a mim, não sei! Cantam lindamente. Ninguém lhes resiste. Arrastam-nos para o fundo do mar, para as suas cavernas. Satisfazem-se, a seu belo prazer. De lá, nenhum marinheiro voltou para contar... Sabias?»
Sem que dessem conta dele, o Calypso cruzou a enseada e seguiu. Já tinham adormecido.


Mal o avô saiu do quarto o Faísca entrou e foi farejar insistentemente cada um dos búzios.


De manhã, a Clarinha foi a primeira a acordar. Sacudiu o Pedro «Achas normal este vento frio, Pedro?» Estremunhado, o Pedro não reagiu logo. De facto, soprava um vento arisco. O céu estava carregado de nuvens. O sol encoberto. A vazante, tão acentuada, assustava. «Onde andarão os golfinhos?«
De repente houve um enorme tremor de terra. A maré recuou ainda mais. A Clarinha gritou «Vem aí um tsunami. Só pode ser, Pedro. Fugimos para onde?» Atarantado, às voltas, apesar de acentuadamente escarpada, quase inacessível, gritou «Para a falésia, Clarinha! Corre, Corre, CORRE!!!»
Foi no instante em que a onda gigante, galgando a praia e ameaçando destruir tudo, num aluvião apocalíptico, que o Faísca conseguiu identificar o búzio onde eles se encontravam e, numa lambedela rápida, inverter a sua posição.
A Clarinha e o Pedro jamais entenderão o rodopiar da falésia. Atordoados, enregelados, tremendo de pavor, foram surpreendidos por uma enorme língua de cão a acariciá-los, a restituir-lhes calor e segurança. Uma língua amiga, afagando-os e livrando-os do torpor, da aflição por que passaram. Era o Faísca. Libertava-os da exiguidade do búzio, da armadilha da fantasia.

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Ilustração: Gentileza Google


quarta-feira, 20 de agosto de 2008

«CONFISSÃO»



«Escrever pode ser uma óptima desculpa para quem na vida não tem qualquer esperança. É uma maneira de preencher uma sombra e há momentos em que um beijo escrito vale por muitos.

É sempre a vida, é claro, mas com a distância limpíssima das palavras. E tudo sofre de uma insuficiência que a arte tenta reparar, e falha.

Eu espero que a esperança um dia venha e tudo isto não seja mais do que um exercício de gramática.»


In:

«NOS TEUS BRAÇOS MORRERÍAMOS»

Pedro Paixão

Ed. Livros Cotovia

Ilustração: Gentileza Google
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(Vidé Edição de 27 Junho 2007)